
É arriscado escrever sobre isso no calor do momento, enquanto a comunidade brasileira está incendiada por esse assunto. Mas tenho que cumprir meu dever como colunista nesse site e tentar trazer algumas questões sobre o que podemos chamar de ‘incidente trágico’, televisionado na Globo hoje.
Sérgio Amadeu e Júlio Neves são nomes auto-explicativos na comunidade brasileira e dispensam apresentação. Assim como o Jô Soares que dispensa currículo: notório castrador de entrevistas. A sensação ruim que ficou depois da entrevista (curiosamente curta) não é raridade: muitos entrevistados já sairam daquele sofá mal compreendidos e muitas vezes negativamente expostos.
Primeiramente, temos que dar os devidos descontos a situação. Estar sentado naquela primeira fileira e de repente ouvir seu nome, com a banda começando a tocar e a platéia aplaudir deve dar um revertério nas tripas de embaralhar as idéias. É difícil falar sob tamanha tensão e responsabilidade. E o tiro saiu pela culatra.
Falar sobre ‘Software Livre’ para um público que mal sabe o que é ‘Software’ é uma tarefa árdua que exige palavras bem escolhidas e na medida certa, o que é difícil quando se é sempre interrompido pelo Jô Soares. Eu já comecei a bater com a palma da mão na testa quando o Jô começou a subverter a questão do livre versus gratuito e de ter plantado a semente da desconfiança de que o SL é uma armadilha comercial, assim como os empestiantes CDs da UOL e AOL que contemplavam como brinde um contrato e uma mensalidade à pagar.
Também o Amadeu foi muito infeliz (beirando o desgraçado, com todo o respeito se for possível) com os exemplos que deu. Ao falar que a Google usa Apache, e que Apache é Software Livre, Jô Soares fez a célebre pergunta ‘Então eu posso mudar o Google ?’ que foi respondida sonoramente como um ‘não’. Para um olhar leigo, os entrevistados foram jogados em contradição.
Resumo da ópera: quem nunca tinha ouvido falar em Software Livre agora não só sabe que ele existe e pior: tem idéias obscuras sobre ele. A Schincariol sabe muito bem o que é sofrer rejeição de quem sequer atende ao ‘Experimenta ! Experimenta ! Experimenta !‘… é catastrófico.
O que deveria ter sido dito naquela entrevista é o quão tecnologicamente o Software Livre é superior e como ele é uma boa alternativa para as pessoas em casa que são reféns de vírus, instabilidade e quebra de privacidade. Enfatizar que é um movimento social, que é ganhar controle do computador, que é economia com licenças e patentes, enfim, por aí vai.
No IRC, muitos clamaram por uma nova entrevisa, por uma ‘reparação de danos‘. Garanto que isso não ocorrerá. O Programa do Jô é muito avesso a ‘revival’ de assuntos. Vão levar anos para falar em SL denovo e isso é, se forem falar denovo. Não acho que bombardear de e-mails raivos o jo@globo.com irá surtir algum efeito.
O que acho que seria produtivo é uma contra-proposta, ou uma contra-entrevista. Me disseram que a entrevista durou cerca de 14 minutos. Que tal fazermos em áudio (ou até em vídeo) uma entrevista de mesma duração, com cenário parecido, roupas parecidas, um entrevistador gordo na plena qualidade de produção Hermes & Renato, talvez até com perguntas parecidas, em que as respostas são esclarecedoras e positivas quanto ao MOVIMENTO SOCIAL (e não armadilha econômica) chamada Software Livre ?
Quanto mais cômico for o vídeo, mais temos chances de embarcar no tal do marketing viral, ao ponto de ter pessoas mandando o vídeo em anexos por forward em e-mails, nicks de MSN e outras horrendices virtuais e fazer com que nossa mensagem atinja um número de pessoas tão abrangente quanto o incidente trágico televisionado hoje.
Alguém se candidata ?
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